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  • Jefferson Negreiros

Repensando a traição !

A vítima na traição nem sempre é a vítima no casamento



Como vai seu relacionamento amoroso? Você acredita que está cuidando devidamente do seu parceiro (a)? Você se sente bem cuidado? Se sente atendido em todas as suas necessidades? E será que é possível encontrar essa complementaridade no outro e servir de completude para alguém? Não seria isto algo impossível?


Traição sexual é só uma das formas de trair. Há várias formas de trair nosso parceiro: desprezo, negligência, indiferença, violência.

Pensamos que os homens traem devido ao tédio e ao medo de intimidade; e que as mulheres traem devido à solidão e ao desejo de intimidade.

Algumas questões que permeiam ter um “affair” (caso): É isto? Existe mais? Vou viver mais 25 anos assim? Vou sentir aquilo que senti um dia novamente?

Infidelidade significa o fim da paixão ou existem coisas que mesmo um bom relacionamento não pode oferecer?


Há três elementos presentes na ocorrência de um caso amoroso: uma relação secreta, uma conexão emocional e energia sexual.

Traição existe desde o princípio dos tempos. A questão é que nunca foi tão fácil trair, mas também nunca foi tão difícil manter um segredo.

A infidelidade nos escancara o fato de não sermos tão indispensáveis e insubstituíveis ou únicos, como pensávamos. Por isto dói na alma. É traumática. Viola nosso senso de confiança em nós, no outro e nos outros.

Pode haver num caso uma busca por conexão emocional, por novidade, liberdade, autonomia, intensidade sexual. Mas também é possível perceber a busca por partes perdidas de nós mesmos, no intuito de reaver nossa própria vitalidade.


Trair muitas vezes não é afastar-se do nosso companheiro, e sim daquilo que nos tornamos. Às vezes não estamos procurando outra pessoa, mas outro “eu”. Procuramos nos sentirmos vivos. Morte e mortalidade estão na sombra quando se tem um caso com alguém.


Ter um caso pode ser uma tentativa de evitar a morte – nossa companheira inevitável, mas contra a qual estamos sempre lutando. Sim, é um tipo de morte quando não sentimos mais aquela vivacidade. Muitos relatam que ao encontrar alguém novo, este os fez sentir-se vivos novamente. Trair muitas vezes acontece mais pelo desejo em si do que pelo sexo. Desejo de sentir-se especial, desejo de atenção, de sentir-se importante.


O fato de não poder ter também é algo que nos mantém querendo. O proibido atrai e é a máquina que mantém a infidelidade.

Saber da existência de um caso pode sim roubar-nos a felicidade e a identidade, pois a partir dele já nem sabemos mais quem somos – tanto aquele que foi traído, quanto aquele que traiu perdem o próprio referencial, pois o traidor muitas vezes se vê fazendo coisas que jamais imaginaria fazer.

O fato é que nossa cultura atual diz que precisamos e merecemos ser felizes, o que acaba nos impulsionando na busca da satisfação de nossos desejos.

E um caso é sempre o final de um relacionamento?


Hoje muitos se divorciam não para serem felizes, como no passado, mas por acreditarem poder ser mais felizes. No passado divórcio era uma vergonha. Hoje, vergonha sente quem após ser traído opta por ficar na relação.

Quem é traído precisa recuperar o prazer, o significado e a identidade. Fazer coisas que lhe deem prazer, conhecer pessoas, encontrar amigos, reaver seu autovalor.


Por mais difícil que pareça, a cura para algo que machucou e deixou marcas profundas, como a traição, não está somente em parar com o caso; está naquele que traiu reconhecer o que fez, assumir o que fez de errado e expressar remorso e culpa por ferir o parceiro. Ao contar, este liberta o outro de dúvidas torturantes e só assim abre uma chance de restaurar a relação.

Ao traidor cabe a partir de então ocupar-se em vigiar a relação. Cuidar de seus limites, falar a verdade. Só isto poderá dar chance ao início da restauração do relacionamento.


Ao saber da traição, é recomendado que o parceiro traído abandone o desejo de saber detalhes sórdidos que só machucam e tiram-lhe o sono, fazendo ao outro incansavelmente perguntas do tipo: como ela era? Como ele fazia? Onde vocês faziam? O outro era melhor do que eu na cama? Com que frequência?

Ao invés disto, deve sim preocupar-se com questões que podem ser o cerne da traição, tais como: o que essa relação significou para você? O que você foi capaz de experienciar ou expressar lá que você não consegue comigo? Como foi para você quando você decidiu voltar para casa? Como era para você quando você voltava para casa? O que nós dois temos que você valoriza? Você está satisfeito por isto ter acabado?


A vítima na traição nem sempre é a vítima no casamento.

Duas perspectivas para se olhar para a ocorrência de um caso:


- Dor e traição, e do outro lado

- Crescimento e autodescoberta


Um caso pode então redefinir um relacionamento quando se olha para o que isto fez com cada um e o que significou.

Se fosse colocado no relacionamento um pouco da audácia, imaginação e vitalidade que é posto num caso, provavelmente a pessoa não teria tido necessidade de trair.


Alguns casos são meramente o golpe final num relacionamento que já está falido. O fato é que a grande maioria dos casais após descobrirem a existência de um caso, permanecem junto. Alguns simplesmente sobrevivem. Já outros aproveitam a oportunidade e se abrem para novas possibilidades. É também uma oportunidade para o traído dizer no que não está satisfeito. Podem então ter início conversas honestas muitas vezes não ocorridas por décadas de relacionamento.


Alguns parceiros indiferentes sexualmente, após se saberem traídos se espantam ao perceber-se mais animados com o sexo. O medo de perder abre uma porta para o desejo e para uma nova forma de confiança.

Algumas pessoas terão ao longo da vida vários relacionamentos e casamentos, outras tem mais de um relacionamento ou casamento com a mesma pessoa. Você está disposto a reiniciar um novo relacionamento com seu próprio parceiro?


(Baseado na palestra de Esther Perel)

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